A canção
Pixinguinha compôs Carinhoso entre 1916 e 1917 e depois guardou a música por mais de dez anos. O motivo era técnico, e só faz sentido quando alguém explica: choro daquela época tinha três partes, na ordem ABACA, e Carinhoso nasceu com duas. Uma peça de duas partes não era considerada choro pelo pessoal do ramo. O compositor engavetou e foi tocar outra coisa.
A data, aliás, é menos firme do que parece. O pesquisador José Silas Xavier aponta a dificuldade de precisar em que ano a peça foi escrita, e considera que 1917, o número que quase todo mundo repete, pode não ser o certo.
Quando a música finalmente saiu da gaveta, em 1928, foi para levar bordoada. A Parlophon gravou a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga tocando Carinhoso ainda sem letra, em andamento bem mais rápido que o de hoje. O crítico Cruz Cordeiro, da revista Phono-Arte, publicou nota reprovando a peça: para ele, Pixinguinha estava contaminado por ritmos e melodias de jazz. A acusação de americanismo perseguiu o compositor por anos, e não era só sobre música. No ano seguinte veio uma segunda gravação, pela Orquestra Victor Brasileira, também instrumental, também sem virar coisa alguma.
O que mudou tudo foi um pedido de última hora. Em 1936, a cantora Heloísa Helena precisava de uma canção inédita para a Parada das Maravilhas, espetáculo beneficente promovido pela primeira-dama Darcy Vargas. Ela procurou João de Barro, o Braguinha, e ele se lembrou do choro velho de Pixinguinha. Não havia partitura à mão: Pixinguinha tocou a melodia na flauta, repetidas vezes, até João de Barro decorar. A letra saiu daí, e é a letra que faz a música existir do jeito que todo mundo conhece.
Vale medir o tamanho do intervalo. Entre a melodia e a letra passaram-se cerca de vinte anos, e entre a primeira gravação e a que ficou famosa, quase dez. Quem cresceu cantando Carinhoso na voz de Orlando Silva também chegou depois: chegou duas décadas depois de a melodia existir.
O compositor
O homem que atravessou três eras da música brasileira

Alfredo da Rocha Vianna Filho cresceu dentro da música por acidente de endereço. O pai era funcionário do Telégrafo e flautista amador, e a casa da família, no Catumbi, tinha oito cômodos que viviam cheios de músicos. O lugar acabou conhecido como Pensão do Choro: um menino criado ali não precisava procurar aula de música em lugar nenhum.
Em 1917, o gerente de cinema Isaac Frankel pediu a ele que montasse um conjunto para tocar na sala de espera, enquanto a plateia aguardava a sessão. Desse pedido sem ambição nenhuma saíram Os Oito Batutas. Cinco anos depois, em 28 de janeiro de 1922, o grupo embarcou para Paris, bancado por Arnaldo Guinle. A viagem virou escândalo em parte da imprensa carioca: incomodava que músicos negros representassem o país lá fora.
Ele foi flautista até virar saxofonista, em 1946, e foi arranjador de gravadora numa época em que arranjo era trabalho anônimo. É por isso que o nome dele aparece em centenas de discos sem estar na capa. Morreu em 17 de fevereiro de 1973, dentro de uma igreja em Ipanema, onde tinha ido a um batizado.
O Brasil na época
O Brasil que ouviu Carinhoso pela primeira vez
A gravação de Orlando Silva chegou às lojas em julho de 1937. Em 10 de novembro do mesmo ano, Getúlio Vargas fechou o Congresso, outorgou uma nova Constituição e começou o Estado Novo. A canção que o país inteiro passou a cantar entrou em circulação nos últimos meses antes da ditadura.
O veículo dessa popularidade tinha menos de um ano. A Rádio Nacional foi ao ar em setembro de 1936, e Orlando Silva estava no elenco desde o começo. Vargas entendeu rápido o que aquilo significava: rádio alcançava quem não lia jornal. O mesmo aparelho que levou Carinhoso para dentro das casas levaria, pouco depois, a voz do governo.
Era também o período em que o samba deixava de ser caso de polícia e virava material de identidade nacional, sob vigilância. Nesse ambiente, uma canção que dez anos antes tinha sido acusada de americanismo virou, sem mudar uma nota, símbolo do que o Brasil tinha de mais brasileiro.

As gravações
Três existem. Uma é a que importa.
- 1928Orquestra Típica Pixinguinha-Donga · ParlophonInstrumental, sem letra, em andamento bem mais rápido. É a gravação que o crítico da Phono-Arte acusou de jazz.
- 1929Orquestra Victor Brasileira · VictorTambém instrumental. Passou sem deixar marca.
- 1937Orlando Silva · VictorA primeira com a letra de João de Barro, com regional atrás e andamento lento. É a que o país decorou.A escolhida
A versão certa
Orlando Silva, 1937
É a gravação em que Carinhoso deixa de ser um choro instrumental e vira canção. As duas anteriores existem e são de Pixinguinha, mas não têm letra, e sem letra a música nunca saiu do círculo dos músicos. Orlando Silva canta com o regional atrás, em andamento bem mais lento que o de 1928, e é esse andamento que o país decorou.
- Gravada em
- 28 de maio de 1937
- Selo
- Victor, disco 34.181, lado A
- Matriz
- 80423
O que escutar
Três coisas para ouvir na gravação de 1937
- A formaSão duas partes que se alternam, A e B, e mais nada. Conte enquanto ouve: quando a segunda parte acaba, a primeira volta. Foi essa economia que fez o pessoal do choro torcer o nariz nos anos 1920, e é ela que faz a melodia grudar em quem nunca estudou música.
- O andamentoPonha a gravação de 1928 antes desta e ouça as duas em seguida. São as mesmas notas em velocidades diferentes, e a diferença de andamento muda o gênero da peça: depressa ela é choro de conjunto para dançar, e devagar vira canção de um homem só diante de um microfone.
- O jeito de cantarOrlando Silva entra um pouco atrás do tempo do regional e alcança a frase no meio do caminho, em vez de cair junto com o violão. É a marca dele, e é o motivo de a gravação soar de perto mesmo com o conjunto inteiro atrás.
Do acervo

Uma linha
Aos setenta anos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim foi atrás da certidão de batismo na Igreja de Santana e descobriu que a festa estava um ano atrasada: o homenageado fazia setenta e um.
Pergunta
Em que cômodo da casa Carinhoso estava tocando, e quem estava junto?
